JOSÉ SARAMAGO

Morreu hoje José Saramago, prémio Nobel da Literatura Portuguesa.

Dificílimo acto é o de escrever, responsabilidade das maiores.(…) Basta pensar no extenuante trabalho que será dispor por ordem temporal os acontecimentos, primeiro este, depois aquele, ou, se tal mais convém às necessidades do efeito, o sucesso de hoje posto antes do episódio de ontem, e outras não menos arriscadas acrobacias(…)

José Saramago, A Jangada de Pedra, 1986



«...Senhora mãe e rainha minha, aqui estou eu indo para Espanha, donde não voltarei, e em Mafra sei que se constrói um convento por causa de voto em fui parte, e nunca ninguém de cá me levou a vê-lo, há nisto muita coisa que não sei entender, Minha filha e futura rainha, não retires ao tempo que deve ser de oração o tempo de vãos pensamentos, tais são esses, a real vontade de teu pai e senhor nosso quis que se levantasse o convento, a mesma real vontade quer que vás para Espanha e o convento não vejas, só a vontade de el-rei prevalece, o resto é nada, Então é nada esta infanta que eu sou, nada os homens que vão além, nada este coche que nos leva, nada aqule oficial que ali vai à chuva e olha para mim, nada, Assim é minha filha, melhor verás que o mundo é como uma grande sombra que vai passando para dentro do nosso coração, por isso o mundo se torna vazio e o coração não resiste, Oh minha mãe, que é nascer, Nascer é morrer, Maria Bárbara.»

José Saramago, «Memorial do Convento», 1982

NO SILÊNCIO DOS OLHOS

Em que língua se diz, em que nação,
Em que  outra humanidade se aprendeu
A palavra que ordene a confusão
Que neste remoinho se teceu?
Que murmúrio de ventos, que dourados
Cantos de ave pousada em altos ramos
Dirão em som, as coisas que, calados,
No silêncio dos olhos confessamos?

José Saramago, «Os Poemas Possíveis», 1999

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