UM PAR DE BOTAS

No terceiro período o 6º B fez mais uma experiência literária. Foi-lhes lido um excerto do conto de Machado de Assis «Filosofia de Um Par de Botas» e explorado o vocabulário mais difícil.
Propositadamente, foi ocultado o diálogo original entre as duas botas, para que os alunos dessem asas à sua imaginação e recriassem o diálogo entre estas duas personagens, que se encontram abandonadas numa praia… Pedia-se também que fizessem o uso correcto das marcas de diálogo e utilizassem diversificadamente os verbos declarativos. Assim o fizeram os alunos e aqui estão alguns textos bem conseguidos.

A proposta:

Lê com atenção o início deste conto de Machado de Assis, escritor brasileiro do séc. XIX. Depois, imagina a conversa que o narrador terá ouvido entre as duas botas, a bota esquerda e a bota direita, ao relembrarem a vida que tiveram. Utiliza o diálogo, não esquecendo as respectivas marcas, e procurando diversificar os verbos declarativos.

O excerto do conto lido:


Filosofia de Um Par de Botas
de Machado de Assis – ( Edição referência: http://www2.uol.com.br/machadodeassis
Publicado originalmente em O Cruzeiro 1878)


«Uma destas tardes, como eu acabasse de jantar, e muito, lembrou-me dar um
passeio à Praia de Santa Luzia, cuja solidão é propícia a todo homem que ama
digerir em paz. Ali fui, e com tal fortuna que achei uma pedra lisa para me sentar, e
nenhum fôlego vivo nem morto. — Nem morto, felizmente. Sentei-me, alonguei os
olhos, espreguicei a alma, respirei à larga, e disse ao estômago: — Digere a teu
gosto, meu velho companheiro. Deus nobis haec otia fecit.
Digeria o estômago, enquanto o cérebro ia remoendo, tão certo é, que tudo
neste mundo se resolve na mastigação. E digerindo, e remoendo, não reparei logo
que havia, a poucos passos de mim, um par de coturnos velhos e imprestáveis. Um
e outro tinham a sola rota, o tacão comido do longo uso, e tortos, porque é de notar
que a generalidade dos homens camba, ou para um ou para outro lado. Um dos
coturnos (digamos botas, que não lembra tanto a tragédia), uma das botas tinha um
rasgão de calo. Ambas estavam maculadas de lama velha e seca; tinham o couro
ruço, puído, encarquilhado.
Olhando casualmente para as botas, entrei a considerar as vicissitudes
humanas, e a conjecturar qual teria sido a vida daquele produto social. Eis senão
quando, ouço um rumor de vozes surdas; em seguida, ouvi sílabas, palavras, frases,
períodos; e não havendo ninguém, imaginei que era eu, que eu era ventríloquo; e já
podem ver se fiquei consternado. Mas não, não era eu; eram as botas que falavam
entre si, suspiravam e riam, mostrando em vez de dentes, uma pontas de tachas
enferrujadas. Prestei o ouvido; eis o que diziam as botas: […]»

O texto do Bruno S. Marques, nº6:

- Já viste o nosso estado? – questionou a bota direita.
- Sim, tens razão - declarou a bota esquerda – estivemos sempre de pé em pé, fizemos quilómetros, corremos, andámos e agora… estamos nestes preparos! – acrescentou .
- É incrível, estivemos nos pés de gerações de famílias inteiras e agora somos abandonadas. – comentou a direita.
- Espera…escuta…eu acho que estamos a ser espiadas. – sussurrou a esquerda.
- Depois de todos estes anos, não me importo nada que ouçam os meus desabafos. – disse a direita.
- Bem, já pensaste no que fazemos agora? – perguntou a direita.
- Tu é que és o cérebro da equipa! – exclamou a esquerda.
- Calma! Nós a discutir não vamos a lado nenhum, portanto é melhor pensarmos num plano para sairmos daqui. – avaliou a direita a situação.
- Eu acho que tenho a solução! – interrompi.
- O quê? - perguntaram as duas boquiabertas.
- Vou levar-vos a um sapateiro. – respondi.
Lá as levei, e agora estão bem guardadinhas em casa, para um dia as voltar a passar de geração em geração. Só espero que os meus filhos, netos e bisnetos as tratem tão bem como eu as tratei. E ai deles que as deixem tão mal como eu as encontrei naquela maldita praia de Santa Luzia!

O texto da Mariana Sofia Rebelo, nº 21:

UM PAR DE BOTAS

- Está um dia lindo! - disse António, a bota esquerda.
- Podes crer que está! – confirmou Maria, a bota direita – parece o dia do nosso casamento !- acrescentou.
- Ainda me lembro desse dia… todo o interior do roupeiro estava enfeitado… todos os sapatos estavam sentados na sapateira e eu estava no altar à tua espera!
- Foi uma festa maravilhosa!
- E todos os sapatos presenciaram a festa!
- Sabes, eles gostavam muito de nós…- recordou a bota direita com tristeza.
- E nós deles… - acrescentou António, quase chorando.
- Foi muito triste quando nos fomos embora… - disse Maria, muito desgostosa.
- Mas a nossa dona, a Ana, fez bem… os seus pés já não conseguiam entrar dentro de nós…
- Sim, foi uma atitude generosa para com a sua afilhada! - compreendeu Maria.
- A sua afilhada era uma menina muito bem formada e educada. Era especial, era a Joana!
- Preocupava-se muito com o nosso bem-estar! – exclamou Maria.
- Lá isso é verdade! Limpava-nos todos os dias! – concordou António.
- A Joana era muito boa alpinista! E só tinha os seus 22, 23 aninhos…
- Essa é que é essa! Olha lá, de todas as montanhas que escalámos qual foi a que mais gostaste? – questionou António.
- Foi sem dúvida «Zermatt»!
- Sim, foi realmente magnífico!
- E quando chegámos ao cimo… aquela sensação de vitória!!!... – exclamou Maria encantada
- Pois é…mas tu feita totó não foste capaz de admirar aquela vista fantástica…!
- Tenho vertigens, o que é que queres que eu faça?
- Bolas, Maria, era uma oportunidade única!
- Mau! Estava a ir tão bem a conversa, tinhas que estragar tudo - disse Maria irritada.
- Pronto, pronto…tens toda a razão! Desculpa… - sussurrou António com carinho.
E por momentos fez-se o silêncio e eu pensava que estava a ficar maluco! As botas falam?!
- O pior foi depois – continuaram as botas – fomos abandonadas.
- Pois foi… pelo pai dela…
- Bahh… que homem! Mentiu-lhe! Disse-lhe que ia despejar o lixo e levou-nos às escondidas…
- E depois arrastou-nos com tanta força para uma pequena duna na praia que ficava mesmo em frente à casa, que ficámos sem sentidos…
- E sem sabermos como…viemos parar a esta quebrada…
- O que me valeu foste tu! – exclamou Maria.
- Sem ti nada sou!... – acrescentou António.
- Que querido, o meu marido! – disse Maria apertando-lhe as bochechas.
- Ai, ai! Velhas memórias de duas botas velhas! – disseram em coro, tristes por estarem velhas mas contentes por estarem juntas e por terem passado por tanta aventura!!!

O texto da Inês Mota Marques, nº 11:

- Ai, velha amiga! Que bons velhos tempos!
- Não me digas nada! – exclamou a bota esquerda um pouco indignada.
- Pronto, não te zangues! – disse a bota direita.
- Ah, Paris! - exclamou a bota esquerda suspirando – Super! Magnífico!!!
A bota esquerda resolveu então puxar conversa retorquindo:
- Sim, sim! Lembras-te quando fomos ao melhor restaurante de Paris?
- Se me lembro, cara amiga! – riu-se a bota direita.
- Daquela vez é que foi engraçado! – disse a sua companheira muito divertida. – Não te lembras?
- Não! Nunca me contaste! – exclamou a outra bota, ligeiramente pensativa.
A outra, porém, surpresa, exclamou:
- Ai, ai… essa memória! Eu conto-te, já que não te lembras de nada!
A bota esquerda começou a então a contar:
- Certo dia fomos jantar ao melhor restaurante de Paris. Lá, a comida era óptima!
A bota direita interrompeu:
- De comer e chorar por mais…
- Isso mesmo!!! Vês como tu sabes?! – exclamou a bota esquerda e continuou. - Fomos a casa do Sr. Pierre e este sentou-se à mesa…quando começou a deixar cair migalhas no chão!!! E nós, quando vimos que a comida era do melhor…
A outra bota, entusiasmada, continuou, lembrando-se agora de tudo:
- Esperámos que ele fosse à casa de banho…
- E quando ele se foi…
- Puxámos a toalha da mesa e comemos tudo!!! – gritaram as duas ao mesmo tempo, rindo e pulando.
- Ahhhh! Ihhhhh! Como foi engraçado!!! - gritaram.
-Ah! E não te esqueças que quando o Sr. Pierre viu que a comida tinha desaparecido ficou indignado! - acrescentou a outra.
- Ah! Ah! Ah! Ih! Ih! Ih! – riram.
E eu, de boca aberta e muito divertido, vi as duas botas brincalhonas desaparecerem no horizonte rindo alto e brincando.
- Uff! – suspirei – Que duas!!!


O texto do Leonardo Marcelino, nº 14:

- Lembras-te de quando saímos da fábrica novinhas?
- Sim, foi tão bom! Agora não nos resta nada, estamos maculadas de lama, temos o couro ruço, puído e encarquilhado.
- Mas quando saímos de lá, fomos logo compradas porque era a moda da altura!
- É verdade, mas passado um mês já nos tinham mandado embora...
- Pois foi, diziam que já estávamos gastas e já tínhamos passado de moda.
- Então, quando fomos para o contentor do lixo, de repente ficou tudo escuro e era cá um cheirete!!!
- Ui! Pois era, mas quando o homem nos veio recolher caímos para o chão e lá escapámos até à praia.
- Pois, a nossa vida agora é só passear, mas quando começa a chover , aí é que são elas!
- Ficamos cheias de lama como estamos agora!
- Mas o que eu gostei mesmo foi quando demos a volta ao mundo em 81 dias!
- Passámos pelas diversas capitais e outras cidades, e até aldeias.
- Andámos de comboio e de barco, dia e noite, sem nunca pararmos!
- Ficámos cá com uma cultura! Especialmente com os povos nativos, não foi?
- Pois foi! Tempos tão bons…
- Não se fazia nada, queres tu dizer.
- Mas mau, mau, foi quando entrámos à socapa no barco e caímos as duas.
- Pois foi, acho que o barco se chamava « Titânico».
- Mas depois lá acabámos por nos encontrar.
- Sim, andámos dias e dias à procura uma da outra!
- Exactamente sete meses, duas semanas e três dias!
- Pois foi, eu bem os contei!
- Mas agora é que é, não se faz nada...
- Faz-se tanto como antigamente!
- Precisamos de acção! E que tal se nos separássemos e déssemos outra volta?
- Boa ideia! Tu vais para o norte, que eu vou para o sul.
- Encontramo-nos daqui a 79 dias.
- Até lá!
- Até lá!

O texto da Sofia Schön, nº 27:

- Bem… – disse a bota esquerda – o meu passado foi muito divertido…e muito longo…
- O meu… – afirmou a bota direita – foi também muito divertido, mas muito cansativo…
- Tudo começou numa loja, quando eu ainda estava à venda… Mas um dia vieram buscar-me e esta aventura foi-se desenrolando numa casa de pessoas muito ricas. – retorquiu a bota esquerda.
E continuou:
- Eu estava sempre enfiada no pé de uma senhora que me levava sempre a passear. Eram passeios muito divertidos. Vivi muitos anos naquela casa, até que um dia a senhora se fartou de mim e fui deixada nesta praia muito solitária.
- É uma história muito engraçada, um passado inesquecível…- afirmou a bota direita. - Pois eu comecei as minhas aventuras numa cabana, junto à praia, e andava enfiada num pé que nunca parava quieto. Enfim… mas quem me calçava era um senhor muito bem disposto e que gostava muito de ir à pesca. Passava horas lá, e à noite levava-me a passear. Dávamos grandes passeios à beira-mar. Até que um dia, eu já não cabia no pé dele, e fui deixada nesta praia, muito sozinha.
- A tua história também é muito engraçada e é um passado marcante na tua vida inteira! – comentou a bota esquerda.
E eu, quando ouvi estas duas histórias destas duas botas, fiquei tão surpreendido e pensativo que acabei a digestão num instantinho!
E foi assim que percebi como foi a vida inteira, o passado de duas botas: A BOTA ESQUERDA E A BOTA DIREITA!!!!!

O texto da Beatriz da Branca, nº 5:

FILOSOFIA DE UM PAR DE BOTAS

- Ó Esquerdota, estamos cada vez mais velhas! Já ninguém nos quer! Só de pensar no que este último inquilino nos fez!
- Fala por ti, Direitorta! Eu não estou assim tão velha! O nosso último dono tratava-me muito bem!
- Claro! Ora essa! Tiveste a sorte de o nosso último dono ser esquerdino! Tratava-te melhor a ti do que a mim!
- Mas os outros, antes, não eram esquerdinos!!! Tratavam melhor de ti! Lavavam-te, acariciavam-te… e olha que não foram poucos!
- Pronto, Já chega, Esquerdota! Não é necessário contares a nossa vida toda! Se quiseste casar comigo, a culpa foi tua!
- Lembro-me de quando nos casámos! Eras tão nova, Direitorta! Agora estás uma bota velha, rota e malcriada!
- Olha quem fala, Esquerdota!!! Conheço-te pouco, sabes?!!!
- Espero que as nossas quinhentas e cinquenta e cinco botinhas estejam bem!
- As nossas filhotas já estão tão grandes, Esquerdota! Recebi uma carta da Quintota a dizer que vai casar para a semana com um sapato rico, chamado Sapatolas!!!
- Casar? Casar para quê? Tu não vais apoiar essa ideia, pois não? POIS NÃO?
- Claro que sim! Ela só quer ser feliz!
- Ela não se vai casar e ponto final, Direitorta!
- Mas porquê?
Por fim, um pouco assustado, resolvi intervir:
- Donas botas, não se zanguem, por favor! Deixem todas as vossas lamúrias, porque a Quintota ou lá como ela se chama, só quer ser feliz! Vocês deviam aproveitar e fazer o mesmo!
Elas concordaram e fizeram as pazes!

O texto da Flávia Salgueiro Marques, nº 9:

- Porque te está a rir? – perguntou a bota esquerda à direita.
A bota direita, toda vermelha, retorquiu:
- Lembras-te?!
- De quê? – questiona, confusa, a bota esquerda.
- Daquela vez que estivemos com o João Silva e que nunca parávamos quietas! – respondeu a bota direita
- Sim! Sim! – exclamou a bota esquerda – andávamos sempre a pisar insectos, a pontapear bolas e ele até nos trocava de lado!!! Mas mesmo com esta emoção toda, gostei mais de ir fazer campismo e escalada com o senhor Fernando, uma vez que nos usava sempre…
Com esta resposta, diz a bota direita toda importante:
- Fica sabendo que gostei mais da vez em que o senhor Fernando me calçou e se esqueceu de ti. Ia com tanta pressa … e já sabes que ele dá mais importância ao que é mais importante!
- Também gostei muito quando ficaste cheia de lama , mas tivemos de ficar fechadas na despensa durante semanas por tua causa – respondeu, chateada, a bota esquerda. - Eu detestava aquele cheiro horrível!!!
- E muito pior era quando estávamos com o André… só de me lembrar dá-me vontade de vomitar!!! – exclamou, enojada, a bota direita.
De repente, ouviu-se:
- Façam pouco barulho!!!! Calem-se!!! – Era um búzio a queixar-se do barulho.
- Vamos dormir senão o búzio vai chamar a guarda dos caranguejos e aí, então, é salve-se quem puder! – aconselhou a bota esquerda.
Fui-me embora e fiquei a pensar no que tinha ouvido naquela noite… Fantástico!!!



O texto da Matilde Machado, nº 22

- Ah! Ah! Ah! – Adorei a viagem a Espanha, foi muito engraçada!
- E lembras-te quando ficámos abandonadas ao pé de um caixote do lixo e um senhor nos foi lá buscar? – interrogou a bota esquerda.
- Foi a nossa salvação... – afirmou a bota direita suspirando.
- Pois foi. Se não fosse aquele senhor, já não estávamos aqui – disse a bota esquerda.
- Ele levou-nos para um sítio cheio de lama, mas depois abandonou-nos. – retorquiu a bota direita.
- Uns dias depois, um menino foi buscar-nos – declarou contente a bota esquerda – e fomos acampar com ele para um pinhal bem cheiroso.
- Foi muito divertido esse acampamento! – exclamou a bota direita – Corremos, saltámos, foi o máximo!
As botas silenciaram. A bota direita perguntou então à bota esquerda:
- O que está a pensar?
- Estou a lembrar-me de uma viagem que fizemos. –respondeu calmamente a bota esquerda.
- Qual, qual? – inquiriu, excitadamente, a bota direita.
- Aquela em que andámos de avião com um menino.
- Foi muito giro, adorei! – afirmou a bota direita – Passeámos imenso!
- Sim, mas o menino veio passear à praia e deixou-nos aqui! – disse tristemente a bota esquerda.
- Agora só se alguém muito generoso nos quiser. – afirmou a bota direita – Estamos velhas e sujas, achas que alguém nos vai querer?
- Não sei, só se for para nos deitar para o lixo.
Ouvindo esta conversa, peguei nelas e levei-as para casa. Chegando a casa, limpei-as e colei-as.
- Será que nos vão deitar para o lixo? – perguntou a bota esquerda preocupada.
- Não sei! – exclamou a direita.
- Querem um sítio para descansar? – perguntei.
- Sim, sim! – responderam as duas excitadíssimas.
Então levei-as para um armário envidraçado onde tinha conchas e búzios que tinha encontrado na praia. E lá viveram muito felizes. (E limpinhas! )

O texto do Rodrigo Henriques, nº 26

- Ai, amiga bota, já passámos tanta coisa juntas e agora estamos aqui rotas, velhas e sozinhas. – disse a bota direita – Lembras-te dos velhos tempos?
- Lembro, pois, passámos belos momentos. – retorquiu a bota esquerda.
- Olha, o meu episódio favorito foi quando o António atravessou a estrada a correr e eu estava com os atacadores desatados. Então… eu caí do pé dele, e fiquei no meio da estrada! Ele parou e, quando vinha um carro, mandou-o também parar, para me poder salvar. Nunca mais me vou esquecer do António. – lembrou a bota direita.
- Mas depois abandonou-nos!!! – exclamou a bota esquerda.
- Eu gostei muito foi quando o João nos encontrou e ficou connosco. Foi logo jogar à bola com os amigos dele e, como era esquerdino, deu um pontapé e eu fui parar em cima de uma árvore. Ele e os amigos subiram todos à árvore para me tirarem de lá e conseguiram. Foi giro e assustador, estar lá em cima quase a cair. – recordou também a bota direita.
- Sim, pois foi – disse a bota esquerda – e quando o João veio a esta praia descalçou-se e a areia cobriu-nos. Agora estamos aqui sozinhas e velhas.
Pararam de falar e ficaram ali assentes, na areia, a ouvir as ondas do mar e a areia a andar pelo ar.


O texto da Margarida Sousa, nº 16

UM PAR DE BOTAS

- Passámos por tantos pés, de tantas pessoas… - dizia, pensativa, a bota esquerda.
- A primeira pessoa que nos calçou foi um rapaz que passava na loja onde estávamos expostas e, olhando, decidiu comprar-nos.
- Pois foi! – retorquiu a bota esquerda.
- Andámos por caminhos molhados e esburacados…
- Ele nunca teve muito cuidado connosco! – protestou a bota direita.
- Até que um dia nos deixou perdidas numa floresta.. – dizia uma delas chorando.
- Passados alguns dias, um lenhador que andava por ali encontrou-nos.
- E levou-nos a uma sapataria para nos arranjarem. – contava a bota direita. E elas riam de contentes, pelo que o lenhador tinha feito por elas.
E eu, que naquela praia estava solitário, não percebia como é que elas sabiam falar!
As botas, entre si, continuaram a falar sobre as suas histórias de vida.
- Depois, o lenhador ofereceu-nos ao filho.
- Aquilo é que era um pai à maneira! – constatava a bota esquerda.
- E por muitos mais pés nós passámos até ficarmos velhotas.
Nisto, com aquela conversa da sua longa vida, as botas acabaram por adormecer e eu, por fim, deixei de as ouvir.
- Calaram-se! – disse eu estranhando.
E fiquei a ver a noite sossegada, a ver as estrelas luzentes que tilintavam no céu.

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E o diálogo original de Machado de Assis que posteriormente foi revelado aos alunos:



BOTA ESQUERDA. Ora, pois, mana, respiremos e filosofemos um pouco.
BOTA DIREITA. Um pouco? Todo o resto da nossa vida, que não há de ser muito grande;
mas enfim, algum descanso nos trouxe a velhice. Que destino! Uma praia! Lembras-te do
tempo em que brilhávamos na vidraça da Rua do Ouvidor?
BOTA ESQUERDA. Se me lembro! Quero até crer que éramos as mais bonitas de todas.
Ao menos na elegância...
BOTA DIREITA. Na elegância, ninguém nos vencia.
BOTA ESQUERDA. Pois olha que havia muitas outras, e presumidas, sem contar aquelas
botinas cor de chocolate... aquele par...
BOTA DIREITA. O dos botões de madrepérola?
BOTA ESQUERDA. Esse.
BOTA DIREITA. O daquela viúva?
BOTA ESQUERDA. O da viúva.
BOTA DIREITA. Que tempo! Éramos novas, bonitas, asseadas; de quando em quando,
uma passadela de pano de linho, que era uma consolação. No mais, plena ociosidade.
Bom tempo, mana, bom tempo! Mas, bem dizem os homens: não há bem que sempre
dure, nem mal que se não acabe.
BOTA ESQUERDA. O certo é que ninguém nos inventou para vivermos novas toda vida.
Mais de uma pessoa ali foi experimentar-nos; éramos calçadas com cuidado, postas
sobre um tapete, até que um dia, o dr. Crispim passou, viu-nos, entrou e calçou-nos. Eu,
de raivosa, apertei-lhe um pouco os dois calos.
BOTA DIREITA. Sempre te conheci pirracenta.
BOTA ESQUERDA. Pirracenta, mas infeliz. Apesar do apertão, o dr. Crispim levou-nos.
BOTA DIREITA. Era bom homem, o dr. Crispim; muito nosso amigo. Não dava
caminhadas largas, não dançava. Só jogava o voltarete, até tarde, duas e três horas da
madrugada; mas, como o divertimento era parado, não nos incomodava muito. E depois,
entrava em casa, na pontinha dos pés, para não acordar a mulher. Lembras-te?
BOTA ESQUERDA. Ora! por sinal que a mulher fingia dormir para lhe não tirar as ilusões.
No dia seguinte ele contava que estivera na maçonaria. Santa senhora!
BOTA DIREITA. Santo casal! Naquela casa fomos sempre felizes, sempre! E a gente que
eles freqüentavam? Quando não havia tapetes, havia palhinha; pisávamos o macio, o
limpo, o asseado. Andávamos de carro muita vez, e eu gosto tanto de carro! Estivemos ali
uns quarenta dias, não?
BOTA ESQUERDA. Pois então! Ele gastava mais sapatos do que a Bolívia gasta
constituições.
BOTA DIREITA. Deixemo-nos de política.
BOTA ESQUERDA. Apoiado.
BOTA DIREITA (com força). Deixemo-nos de política, já disse!
BOTA ESQUERDA (sorrindo). Mas um pouco de política debaixo da mesa?... Nunca te
contei... contei, sim... o caso das botinas cor de chocolate... as da viúva...
BOTA DIREITA. Da viúva, para quem o dr. Crispim quebrava muito os olhos? Lembra-me
que estivemos juntas, num jantar do comendador Plácido. As botinas viram-nos logo, e
nós daí a pouco as vimos também, porque a viúva, como tinha o pé pequeno, andava a
mostrá-lo a cada passo. Lembra-me também que, à mesa, conversei muito com uma das
botinas. O dr. Crispim sentara-se ao pé do comendador e defronte da viúva; então, eu fui
direita a uma delas, e falamos, falamos pelas tripas de Judas... A princípio, não; a
princípio ela fez-se de boba; e toquei-lhe no bico, respondeu-me zangada: “ Mas eu
insisti, perguntei-lhe por onde tinha andado, disse-lhe que estava ainda muito bonita,
muito conservada; ela foi-se amansando, buliu com o bico, depois com o tacão, pisou em
mim, eu pisei nela e não te digo mais...
BOTA ESQUERDA. Pois é justamente o que eu queria contar...
BOTA DIREITA. Também conversaste?
BOTA ESQUERDA. Não; ia conversar com a outra. Escorreguei devagarinho, muito
devagarinho, com cautela, por causa da bota do comendador.
BOTA DIREITA. Agora me lembro: pisaste a bota do comendador.
BOTA ESQUERDA. A bota? Pisei o calo. O comendador: Ui! As senhoras: Ai! Os
homens: Hein? E eu recuei; e o dr. Crispim ficou muito vermelho, muito vermelho...
BOTA DIREITA. Parece que foi castigo. No dia seguinte o dr. Crispim deu-nos de
presente a um procurador de poucas causas.
BOTA ESQUERDA. Não me fales! Isso foi a nossa desgraça! Um procurador! Era o
mesmo que dizer: mata-me estas botas; esfrangalha-me estas botas!
BOTA DIREITA. Dizes bem. Que roda viva! Era da Relação para os escrivães, dos
escrivães para os juízes, dos juízes para os advogados, dos advogados para as partes
(embora poucas), das partes para a Relação, da Relação para os escrivães...
BOTA ESQUERDA. Et coetera. E as chuvas! e as lamas! Foi o procurador quem primeiro
me deu este corte para desabafar um calo. Fiquei asseada com esta janela à banda.
BOTA DIREITA. Durou pouco; passamos então para o fiel de feitos, que no fim de três
semanas nos transferiu ao remendão. O remendão (ah! já não era a Rua do Ouvidor!)
deu-nos alguns pontos, tapou-nos este buraco, e impingiu-nos ao aprendiz de barbeiro do
Beco dos Aflitos.
BOTA DIREITA. Com esse havia pouco que fazer de dia, mas de noite...
BOTA ESQUERDA. No curso de dança; lembra-me. O diabo do rapaz valsava como
quem se despede da vida. Nem nos comprou para outra coisa, porque para os passeios
tinha um par de botas novas, de verniz e bico fino. Mas para as noites... Nós éramos as
botas do curso...
BOTA DIREITA. Que abismo entre o curso e os tapetes do dr. Crispim...
BOTA ESQUERDA. Coisas!
BOTA DIREITA. Justiça, justiça; o aprendiz não nos escovava; não tínhamos o suplício da
escova. Ao menos, por esse lado, a nossa vida era tranqüila.
BOTA ESQUERDA. Relativamente, creio. Agora, que era alegre não há dúvida; em todo
caso, era muito melhor que a outra que nos esperava.
BOTA DIREITA. Quando fomos parar às mãos...
BOTA ESQUERDA. Aos pés.
BOTA DIREITA. Aos pés daquele servente das obras públicas. Daí fomos atiradas à rua,
onde nos apanhou um preto padeiro, que nos reduziu enfim a este último estado! Triste!
triste!
BOTA ESQUERDA. Tu queixas-te, mana?
BOTA DIREITA. Se te parece!
BOTA ESQUERDA. Não sei; se na verdade é triste acabar assim tão miseravelmente,
numa praia, esburacadas e rotas, sem tacões nem ilusões — por outro lado, ganhamos a
paz, e a experiência.
BOTA DIREITA. A paz? Aquele mar pode lamber-nos de um relance.
BOTA ESQUERDA. Trazer-nos-á outra vez à praia. Demais, está longe.
BOTA DIREITA. Que eu, na verdade, quisera descansar agora estes últimos dias; mas
descansar sem saudades, sem a lembrança do que foi. Viver tão afagadas, tão admiradas
na vidraça do autor dos nossos dias; passar uma vida feliz em casa do nosso primeiro
dono, suportável na casa dos outros; e agora...
BOTA ESQUERDA. Agora quê?
BOTA DIREITA. A vergonha, mana.
BOTA ESQUERDA. Vergonha, não. Podes crer, que fizemos felizes aqueles a quem
calçamos; ao menos, na nossa mocidade. Tu que pensas? Mais de um não olha para
suas idéias com a mesma satisfação com que olha para suas botas. Mana, a bota é a
metade da circunspecção; em todo o caso é a base da sociedade civil...
BOTA DIREITA. Que estilo! Bem se vê que nos calçou um advogado.
BOTA ESQUERDA. Não reparaste que, à medida que íamos envelhecendo, éramos
menos cumprimentadas?
BOTA DIREITA. Talvez.
BOTA ESQUERDA. Éramos, e o chapéu não se engana. O chapéu fareja a bota... Ora,
pois! Viva a liberdade! viva a paz! Viva a velhice! (A Bota Direita abana tristemente o
cano). Que tens?
BOTA DIREITA. Não posso; por mais que queira, não posso afazer-me a isto. Pensava
que sim, mas era ilusão... Viva a paz e a velhice, concordo; mas há de ser sem as
recordações do passado...
BOTA ESQUERDA. Qual passado? O de ontem ou de anteontem? O do advogado ou o
do servente?
BOTA DIREITA. Qualquer; contanto que nos calçassem. O mais reles pé de homem é
sempre um pé de homem.
BOTA ESQUERDA. Deixa-te disso; façamos da nossa velhice uma coisa útil e
respeitável.
BOTA DIREITA. Respeitável, um par de botas velhas! Útil, um par de botas velhas! Que
utilidade? que respeito? Não vês que os homens tiraram de nós o que podiam, e quando
não valíamos um caracol mandaram deitar-nos à margem? Quem é que nos há de
respeitar? — aqueles mariscos? (olhando para mim) Aquele sujeito que está ali com os
olhos assombrados?
BOTA ESQUERDA. Vanitas! Vanitas!
BOTA DIREITA. Que dizes tu?
BOTA ESQUERDA. Quero dizer que és vaidosa, apesar de muito acalcanhada, e que
devemos dar-nos por felizes com esta aposentadoria, lardeada de algumas recordações.
BOTA DIREITA. Onde estarão a esta hora as botinas da viúva?
BOTA ESQUERDA. Quem sabe lá! Talvez outras botas conversem com outras botinas...
Talvez: é a lei do mundo; assim caem os Estados e as instituições. Assim perece a beleza
e a mocidade. Tudo botas, mana; tudo botas, com tacões ou sem tacões, novas ou
velhas; direita ou acalcanhadas, lustrosas ou ruças, mas botas, botas, botas!
Neste ponto calaram-se as duas interlocutoras, e eu fiquei a olhar para uma e outra, a
esperar se diziam alguma coisa mais. Nada; estavam pensativas.
Deixei-me ficar assim algum tempo, disposto a lançar mão delas, e levá-las para casa
com o fim de as estudar, interrogar, e depois escrever uma memória, que remeteria a
todas as academias do mundo. Pensava também em as apresentar nos circos de
cavalinhos, ou ir vendê-las a Nova York. Depois, abri mão de todos esses projetos. Se
elas queriam a paz, uma velhice sossegada, por que motivo iria eu arrancá-las a essa
justa paga de uma vida cansada e laboriosa? Tinham servido tanto! tinham rolado todos
os degraus da escala social; chegavam ao último, a praia, a triste Praia de Santa Luzia...
Não, velhas botas! Melhor é que fiqueis aí no derradeiro descanso.
Nisto vi chegar um sujeito maltrapilho; era um mendigo. Pediu-me uma esmola; dei-lhe
um níquel.
MENDIGO. Deus lhe pague, meu senhor! (Vendo as botas) Um par de botas! Foi um anjo
que as pôs aqui...
EU (ao mendigo). Mas, espere...
MENDIGO. Espere o quê? Se lhe digo que estou descalço! (Pegando nas botas) Estão
bem boas! Cosendo-se isto aqui, com um barbante...
BOTA DIREITA. Que é isto, mana? que é isto? Alguém pega em nós... Eu sinto-me no
ar...
BOTA ESQUERDA. É um mendigo.
BOTA DIREITA. Um mendigo? Que quererá ele?
BOTA DIREITA (alvoroçada). Será possível?
BOTA ESQUERDA. Vaidosa!
BOTA DIREITA. Ah! mana! esta é a filosofia verdadeira: — Não há bota velha que não
encontre um pé cambaio.

Núcleo de Pesquisas em Informática, Literatura e Lingüística


8 comentários:

Carlos Manta Oliveira disse...

Parabéns a todos, estão impecáveis as vossas criações.

Anónimo disse...

Olá professora!

Acho que todos os textos estão muito originais!

Parabéns!!!



Beijinhos da Ana Sofia

Lígia disse...

Olá Ana Sofia,

A passear no Jardim? Então já leste os textos todos? Também acho que estão muito engraçados e foi giro compará-los com o original. Aparece sempre por aqui.

Beijinhos

P.S.Não te esqueças de trabalhar um bocadinho durante as férias, está bem?

Lígia disse...

Olá, Carlos!

É verdade que tenho aqui gente com jeitinho para a escrita. Até tenho pena de os deixar e de não poder continuar a explorar os seus dotes literários, mas alguém o há-de fazer, seguramente... (É o final de um ciclo- 6º ano...)

Um abraço e obrigada pelas tuas palavras

ana filipa disse...

ola professora !! andei a fazer uns exeercicios e o jogo da forca é muito giro.



Ana Filipa 6ºD

ana filipa disse...
Este comentário foi removido por um gestor do blogue.
jardimdasletras disse...

Olá Filipa!
Finalmente vejo que os meus alunos do 6ªD já usam o blogue para se divertirem, ao mesmo tempo que aprendem! Fico muito contente!
Beijinhos e até amanhã!

sbasti disse...

O Magusto virtual está muita giro, professora.




Bjs. :-)

Sebastião